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Facetas de zircônia na odontologia contemporânea: propriedades, indicações e limites clínicos

por Thiago Kempen


Durante muitos anos, a zircônia esteve associada quase exclusivamente às infraestruturas protéticas e às reabilitações posteriores. A principal justificativa era sua elevada resistência mecânica, enquanto sua opacidade restringia o uso em regiões de alta exigência estética. A introdução das zircônias de alta translucidez alterou esse cenário e trouxe o material para o campo das restaurações minimamente invasivas, incluindo as facetas.



Este artigo foi elaborado exclusivamente a partir da análise de estudos científicos previamente publicados, revisões de literatura e ensaios clínicos disponíveis em bases de dados reconhecidas. O conteúdo apresentado não reflete opinião pessoal, experiência clínica individual ou posicionamento do autor em relação ao uso do material, tendo como objetivo apenas reunir e organizar informações descritas na literatura para que o leitor possa interpretá-las de forma crítica e construir sua própria tomada de decisão com base nas evidências disponíveis.


Essa mudança não ocorreu por uma transformação no conceito restaurador, mas por modificações na composição cristalina do material. O aumento do teor de ítria levou à formação de maior quantidade de fase cúbica, o que permitiu maior passagem de luz e melhor comportamento óptico. Ao mesmo tempo, essa alteração reduziu os valores de resistência quando comparados às zircônias tetragonais tradicionais, estabelecendo um equilíbrio entre estética e desempenho mecânico que passou a ser determinante na indicação clínica.


Estudos laboratoriais recentes mostram que as zircônias altamente translúcidas apresentam resistência à fratura compatível com o uso em facetas, mesmo em pequenas espessuras, desde que o desenho da preparação e a distribuição de tensões sejam adequados. Além disso, a espessura do material continua sendo um fator diretamente relacionado ao resultado óptico e à capacidade de mascaramento do substrato.


Do ponto de vista clínico, ensaios controlados randomizados comparando facetas em zircônia e dissilicato de lítio demonstram taxas de sobrevivência semelhantes no acompanhamento de curto prazo, sem diferenças estatisticamente significativas em adaptação marginal, saúde periodontal ou sensibilidade pós-operatória. Nesses estudos, os eventuais descolamentos das facetas em zircônia puderam ser resolvidos com recimentação sem fratura do material, enquanto falhas envolvendo cerâmicas vítreas estiveram mais relacionadas a fratura durante a remoção.


Isso não significa equivalência absoluta entre os materiais. Em avaliações clínicas controladas, restaurações em dissilicato de lítio ainda apresentam melhores resultados relacionados à translucidez e à naturalidade óptica quando comparadas às zircônias cúbicas, principalmente em situações nas quais o substrato dental não exige mascaramento.


A adesão continua sendo um dos pontos centrais na discussão sobre facetas em zircônia. Por se tratar de um material policristalino, não há fase vítrea disponível para condicionamento ácido convencional. A literatura mostra que a união depende da associação entre jateamento com óxido de alumínio e sistemas adesivos contendo monômeros fosfatados, capazes de estabelecer ligação química estável com a superfície cerâmica. Revisões sistemáticas indicam que, quando esse protocolo é seguido, é possível obter união durável ao cimento resinoso, embora por um mecanismo diferente daquele observado nas cerâmicas condicionáveis.


Relatos clínicos com acompanhamento de até 24 meses mostram que facetas monolíticas em zircônia podem ser utilizadas de forma minimamente invasiva, especialmente em dentes com alteração cromática significativa, nos quais a necessidade de mascaramento influencia a escolha do material. Nesses casos, o planejamento digital, o mock-up e o preparo guiado são descritos como fundamentais para limitar o desgaste dental e garantir espessura suficiente para o material.


A biocompatibilidade da zircônia, já documentada em pilares implantossuportados e coroas totais, também é mencionada nas restaurações laminadas. A baixa adesão bacteriana e a estabilidade química em meio oral estão associadas à manutenção dos tecidos gengivais e ao comportamento periodontal favorável ao longo do tempo, embora esses dados sejam derivados principalmente de estudos com outros tipos de restauração em zircônia.


Quando a literatura é analisada de forma conjunta, observa-se que o uso de facetas em zircônia não surge como substituição direta das cerâmicas vítreas, mas como uma alternativa com um conjunto de propriedades diferente. A resistência mecânica elevada, a capacidade de mascaramento e a estabilidade estrutural são características frequentemente relacionadas às suas indicações.


Por outro lado, o comportamento óptico ainda depende de fatores como espessura, tipo de zircônia utilizada e cor do substrato.

Outro ponto recorrente nos estudos é a necessidade de maior número de ensaios clínicos de longo prazo. Embora os resultados iniciais sejam considerados favoráveis, a maioria dos acompanhamentos disponíveis ainda é de curto e médio prazo quando comparada ao volume de evidência existente para facetas em cerâmicas vítreas.


Diante desses dados, a decisão pelo uso da zircônia em facetas não está relacionada a um conceito de superioridade material, mas à compatibilidade entre as propriedades do material e as demandas específicas de cada caso clínico. A literatura atual descreve desempenho mecânico, comportamento óptico, protocolos adesivos e resultados clínicos iniciais. A interpretação desses fatores e sua aplicação na prática permanecem dependentes do planejamento individualizado.


Referências com acesso direto

Clinical performance of zirconia veneers (ensaio clínico randomizado)https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12073374/

Minimally invasive zirconia veneers – acompanhamento clínico de 24 meseshttps://www.mdpi.com/2673-1592/7/1/1

Fracture resistance of highly translucent zirconia laminate veneershttps://www.nature.com/articles/s41598-025-25856-x

Comparação clínica entre zircônia cúbica e dissilicato de lítiohttps://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/cre2.790

Revisão sistemática sobre adesão à zircônia translúcidahttps://repository.upenn.edu/bitstreams/6b2f836b-8449-4437-9b47-6bcf53d5c706/download

 
 
 

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