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Robótica na odontologia: aplicações em cirurgias, preparos dentários e execução guiada por planejamento digital

por Thiago Kempen


Durante décadas, a odontologia foi definida pela precisão manual do operador. A qualidade de um preparo, a angulação de um implante ou a extensão de uma osteotomia dependiam diretamente da habilidade clínica, da experiência acumulada e da capacidade de controle visual do campo operatório. A digitalização do fluxo de trabalho começou a modificar essa lógica ao transferir o centro das decisões para o ambiente virtual. Com o planejamento tridimensional, posição, profundidade e limites passaram a ser definidos antes do início do procedimento. A robótica surge como a continuidade desse processo: um sistema capaz de executar, com controle físico e em tempo real, aquilo que foi planejado digitalmente.



Este artigo foi elaborado exclusivamente a partir da análise de estudos científicos previamente publicados, revisões de literatura e ensaios clínicos disponíveis em bases de dados reconhecidas. O conteúdo apresentado não reflete opinião pessoal, experiência clínica individual ou posicionamento do autor em relação ao uso da tecnologia, tendo como objetivo apenas reunir e organizar informações descritas na literatura para que o leitor possa interpretá-las de forma crítica e construir sua própria tomada de decisão com base nas evidências disponíveis.


Na odontologia, os sistemas robóticos disponíveis atualmente não atuam de forma autônoma. Eles funcionam como plataformas de execução guiada, nas quais o profissional realiza o planejamento e o equipamento limita os movimentos fora da área previamente determinada. Esse modelo já é realidade principalmente na implantodontia, onde a precisão tridimensional tem impacto direto na estética, na função e na previsibilidade protética.

Estudos clínicos que avaliaram a instalação de implantes assistida por robôs mostram alta correspondência entre o planejamento virtual e a posição final do implante. Em análises recentes, os desvios lineares e angulares foram menores quando comparados à técnica convencional e compatíveis ou inferiores aos observados em cirurgias guiadas estáticas.https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12374438/


Esses resultados estão associados ao controle contínuo da trajetória de perfuração e à estabilidade do instrumento durante o procedimento. Diferentemente da cirurgia manual, em que o operador depende de referências visuais e táteis, o sistema robótico trabalha dentro de limites geométricos definidos digitalmente, impedindo movimentos fora do eixo planejado.

A comparação entre sistemas robóticos e navegação dinâmica mostra que ambos partem do mesmo princípio, que é a execução baseada em planejamento virtual. A diferença está no controle físico do movimento. Enquanto a navegação fornece orientação visual em tempo real, a robótica adiciona restrição mecânica à trajetória do instrumento.https://www.mdpi.com/2304-6767/13/11/537


Esse conceito também tem sido aplicado em procedimentos mais complexos, como a instalação de implantes zigomáticos, nos quais a precisão angular é determinante para evitar estruturas anatômicas críticas. Nesses casos, os estudos mostram que a execução assistida por robô pode reduzir a variabilidade associada à técnica manual.https://europepmc.org/article/med/39243803


Na cirurgia bucomaxilofacial hospitalar, a robótica já é utilizada há mais tempo, principalmente em ressecções tumorais e reconstruções com retalhos microvascularizados. O princípio é semelhante: acesso a regiões profundas com menor necessidade de grandes incisões, visão ampliada e movimentos com amplitude reduzida. Embora essa aplicação ainda esteja mais restrita ao ambiente hospitalar do que ao consultório odontológico, ela demonstra o mesmo modelo de integração entre planejamento virtual e execução controlada.


Outro campo em desenvolvimento é o preparo dentário assistido por robôs. A maior parte dos estudos foi realizada em ambiente laboratorial ou em modelos experimentais, nos quais o preparo é planejado digitalmente a partir do escaneamento do dente e executado automaticamente dentro de limites predefinidos.



Os resultados mostram alta repetibilidade, controle preciso de profundidade e padronização geométrica dos preparos quando comparados aos realizados manualmente por operadores com diferentes níveis de experiência.https://www.researchgate.net/publication/369457001_Digital_interactive_design_and_robot-assisted_preparation_experiment_of_tooth_veneer_preparation_an_in_vitro_proof-of-concept


Apesar desses dados, os próprios autores destacam que a aplicação clínica depende do controle de variáveis que não estão presentes em modelos experimentais, como micro movimentações do paciente, presença de saliva, comportamento dos tecidos moles e resposta biológica ao desgaste dental.


A adoção da robótica está diretamente relacionada à existência de um fluxo digital estruturado. Tomografia, escaneamento intraoral, softwares de planejamento e integração entre sistemas são etapas indispensáveis para a execução assistida. Isso faz com que a tecnologia esteja mais presente em centros que já trabalham com odontologia digital completa.


Outro fator frequentemente citado é a curva de aprendizado. O tempo cirúrgico inicial tende a ser maior devido às etapas de planejamento e calibração do sistema. Após a padronização do protocolo, os estudos mostram redução do tempo operatório e maior previsibilidade dos resultados.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38195255/


Além disso, o custo de aquisição e manutenção dos equipamentos e a necessidade de treinamento específico influenciam diretamente a velocidade de adoção da tecnologia e sua disponibilidade em diferentes realidades clínicas.


Quando os dados disponíveis são analisados em conjunto, observa-se que a robótica na odontologia está mais consolidada na implantodontia, apresenta aplicação estabelecida em cirurgias hospitalares e ainda se encontra em fase experimental para preparos dentários automatizados. Em todas essas situações, o planejamento digital permanece como a etapa central do processo.

Isso desloca o papel do cirurgião-dentista. A habilidade manual continua sendo necessária, mas o foco passa a estar no diagnóstico, no planejamento e na tomada de decisão clínica. A execução deixa de depender exclusivamente da variabilidade humana e passa a ocorrer dentro de parâmetros definidos previamente.


Assim como ocorreu com o CAD/CAM, com os alinhadores e com a cirurgia guiada, a robótica não representa a substituição imediata das técnicas convencionais, mas a introdução de um novo modelo de execução clínica baseado na reprodução fiel do planejamento virtual.


Referências com acesso direto

Accuracy of robot-assisted dental implant surgeryhttps://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12374438/

Accuracy assessment of robot-assisted implant placementhttps://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40803934/

Clinical performance and learning curve of robotic implant surgeryhttps://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38195255/

Accuracy of navigation and robot-assisted systems for implant placementhttps://www.mdpi.com/2304-6767/13/11/537

Robotic vs dynamic navigation in zygomatic implantshttps://europepmc.org/article/med/39243803

 
 
 

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