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A coragem de não agradar: quando o preparo ruim vira o “problema invisível” do laboratório

Por Rogerio Carvalho

Tem um dilema silencioso que todo técnico/protético conhece: o preparo chega ruim, mas o laboratório precisa entregar um resultado excelente — e, no meio disso, existe a pressão de “não criar atrito” com o dentista.

 

É aqui que dá pra fazer um paralelo direto com o livro “A Coragem de Não Agradar” (Kishimi & Koga), inspirado em ideias da psicologia adleriana: muitas decisões do dia a dia são guiadas por medo de reprovação, vontade de manter aprovação e evitar conflito. 

No laboratório, isso vira um roteiro repetido:

  • “Vou tentar dar meu jeito…”

  • “Melhor não falar nada…”

  • “Depois eu vejo como ajusto…”


 

E aí o técnico fica entre a cruz e a espada: se critica o preparo, pode soar como ataque; se não critica, assume o risco do resultado.

 

O ponto que a ciência já confirmou:


preparo ruim = fit pior (e mais retrabalho)

 

Isso não é “opinião de laboratório”. Tem evidência.

 

Um estudo mostrou correlação estatisticamente significativa entre a qualidade do preparo e a adaptação marginal de coroas CAD/CAM: preparos ideais tiveram gaps menores do que preparos avaliados como “razoáveis” e, principalmente, “ruins”. 

 

E quando a gente olha para o mundo real (o que chega para o laboratório), a situação é ainda mais forte: um trabalho avaliou 392 arquivos STL de preparos posteriores enviados a laboratórios para coroas monolíticas em zircônia e encontrou problemas frequentes como undercuts, término inadequado, geometria desfavorável e conicidade (TOC) fora do recomendado — ou seja, defeitos que viram ajuste, risco de assentamento e, muitas vezes, remake. 

 

Uma revisão sistemática recente reforça o mesmo pano de fundo: o desenho do preparo influencia discrepância marginal e gap interno em próteses de zircônia fabricadas digitalmente. 

 

O que isso causa (e por que o laboratório “paga a conta”)

 

Quando o preparo vem abaixo do padrão, o laboratório entra num jogo perigoso:

  1. Ajuste infinito para “fazer caber” (comendo tempo e margem).

  2. Compromissos técnicos (espessura mínima, contorno, ponto de contato, oclusão).

  3. Risco de falha clínica (assentamento difícil, adaptação marginal questionável).

  4. Reputação em xeque, porque o paciente não sabe o que é “preparo” — ele só vê o resultado final.

 

E aqui vem a parte polêmica: muito laboratório prefere não “desagradar” e tenta salvar o caso em silêncio. Só que isso costuma ter um custo oculto: retrabalho, estresse, atraso e desgaste com o próprio dentista.

A virada: “não agradar” não é ser grosso — é ser profissional

 

A coragem que resolve essa história não é a coragem de brigar. É a coragem de criar um padrão objetivo, com linguagem neutra e critérios claros.

 

Um caminho prático: transformar crítica em protocolo

 

Em vez de “seu preparo está ruim”, o laboratório passa a operar assim:

  • Checklist técnico (sim/não) com 6–10 itens: término, redução oclusal, ângulos internos, undercut, linha de término legível, espaço para material etc.

  • Classificação por nível (ex.: Aprovado / Aprovado com ressalvas / Não aprovado)

  • Evidência visual (print do STL, marcação do undercut, seta no término)

  • Ação recomendada (ex.: “corrigir undercut”, “regularizar término”, “aumentar redução em cúspide funcional”)

 

Isso tira o tema do campo emocional e leva para o campo técnico.

 

Ferramentas digitais já ajudam (e isso tende a crescer)

 

A própria academia tem estudado softwares de avaliação de preparo (como PrepCheck) para melhorar qualidade e feedback no treinamento — sinal de que o mercado está indo para um mundo em que “avaliar preparo” vira rotina. 

O técnico deixa de ser “executor” e vira guardião da previsibilidade

 

Nos próximos anos, com mais CAD/CAM, IA e prazos curtos, vai acontecer uma coisa:

 

Laboratório que não padroniza comunicação de preparo vira laboratório que vive apagando incêndio.

 

E laboratório que padroniza vira parceiro estratégico — porque reduz remake, reduz atrito e aumenta previsibilidade.

Um roteiro de mensagem elegante (sem atrito, sem acusação)

 

“Doutor(a), para garantir assentamento e longevidade, fizemos a checagem técnica do preparo no STL. Identificamos [2 itens objetivos] (ex.: undercut em distal e término irregular em cervical).

Para manter o padrão do caso, recomendamos [ação]. Se preferir seguir sem ajuste clínico, conseguimos executar, mas com risco aumentado de [consequência técnica] e possibilidade de maior tempo de ajuste em boca.

Me diga como prefere seguir e eu já libero o próximo passo.”

 

Percebe? Não tem bronca. Tem padrão, evidência e escolha.

Oportunidade ou ameaça para o laboratório?

 

Ameaça, se você continuar aceitando tudo no “jeitinho” e assumindo o risco.

Oportunidade, se você usar isso para se posicionar como laboratório de previsibilidade.

 

A diferença entre os dois não é tecnologia. É postura.

 

E talvez esse seja o melhor paralelo com “A Coragem de Não Agradar”:

às vezes, para manter o relacionamento saudável no longo prazo, você precisa encarar o desconforto de curto prazo — com respeito, com método e com objetividade

Fontes científicas citadas

  • Renne et al., 2012 — correlação entre qualidade do preparo e adaptação marginal em coroas CAD/CAM. 

  • Sadid-Zadeh et al., 2021 (PMC) — avaliação de 392 preparos (STL) enviados a laboratórios para coroas monolíticas em zircônia; falhas frequentes. 

  • Sengottaiyan et al., 2025 — revisão sistemática sobre influência do desenho do preparo em discrepância marginal e gap interno em zircônia digital. 

  • Alsharif et al., 2024 (PMC) — estudo sobre uso do PrepCheck como ferramenta de feedback para melhorar preparos. 

 


 


 
 
 

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